sábado, 12 de abril de 2014

Elas sempre morrem um pouco..




Eu estava na iminência de deletar o blog, quando me ocorreu compartilhar algo que considerei pertinente. 

Márcia foi professora primária do meu filho mais velho e tínhamos um amigo de infância em comum que nos aproximou. A empatia foi recíproca. Nos tornamos amigas. Ela era uma pessoa muito alto astral, uma ótima companhia para um chá, um happy hour. 

Há pouco mais de um ano, eu não via Márcia, quando fiquei sabendo que ela desapareceu por volta do dia 9 de março passado. Assim que soube, tive um pressentimento ruim.  Soube ali que não a veria mais. Não demorou muito para Márcia ser encontrada morta, no final do mesmo mês. O suposto assassino é seu companheiro, com quem ela vivia um relacionamento há pouco mais de cinco anos. 

Eu não o conheci pessoalmente, só por foto. Ele não gostava de sair com a família ou com os amigos de Márcia. Uma vez, na casa de uma outra amiga, Márcia me mostrou fotos que ela havia tirado do namorado, de sunguinha na praia, quando eles fizeram uma viagem para o Rio de Janeiro. Ele era realmente um “tipão”, como ela dizia. Ali, notei que ela não estava nada bem.   Sua conduta não era compatível com a mulher inteligente, madura e bem resolvida que ela sempre foi. No fundo daquele “exibicionismo” havia muita tristeza e algum medo. 

Márcia cada vez mais se afastava dos amigos e da família, como se levada por uma avalanche que ela não podia ou não queria conter e que culminou na sua morte. Depois disso, por meio de amigos comuns, soube de detalhes do relacionamento dela com seu assassino. Tudo muito previsível. Márcia participou de um jogo de subjugação que infelizmente não teve limites, ou o jogador não era tão habilidoso. Márcia era uma mulher esperta. Para manipulá-la, o jogador só podia ser habilidoso.

Ouvi de um conhecido que as mulheres, hoje, estão todas assim. Submetendo-se  para serem amadas. Não concordo, claro. Isso não é regra, é exceção. Entre as mulheres que conheço não há uma única com este perfil, fora Márcia, que na realidade estava fora de si. 

Geralmente, os detalhes do tipo de relacionamento que Márcia mantinha com seu assassino não são trazidos a tona antes de algum desfecho trágico ou fatal. Mas é bom tocar na ferida sim, até preventivamente. E essa é a finalidade deste post. 

Márcia morreu fisicamente. Ela foi agredida fisicamente. Atualmente, há meios de agressão bem mais sutis, imperceptíveis

De qualquer modo, elas sempre morrem um pouco. Este é o nome de um poema que fiz em homenagem a Márcia e outras mulheres. Minha solidariedade a mulheres que passaram e passam o que eu nunca passei. Aos poucos consigo compreender o que as move. Parece leviana a maneira com que se entregam e talvez seja.  Mas quem poderá avaliar a razão de ser de alguém, porque mais que pareça brutal. Ninguém.  

Elas sempre morrem um pouco

Quando começastes a morrer,
o dia parecia amanhecer depois do 
gozo (embora nunca mais fosse manhã em ti) 

não começaste a morrer ontem 
nem antes de ontem
nem mês passado

começastes a morrer na remota data 
em que 
entregaste teu gozo e boa fé, 
tão boa quanto açucar para 
formigas ociosas e interesseiras.

...... 

Começaste a morrer há muito
e morrias em silêncio
e do que chamavas amor
que era na verdade teu
                       destino
  

........

entregastes tua vida
e não foi em março
a largaste n'alguma
curva e nem vistes quando
       a morte se instalou
(e nem a dor, mais antiga que
a morte)

descansa te regenera
o caminho não acabou.

Ana Franco, 2014


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