domingo, 15 de junho de 2014

Game Over









- Moça, você acredita em espíritos?

A pergunta me surpreendeu. Havia um tom inteligente em cada palavra, cada gesto. A reposta não poderia ser outra.

- Acredito, você não acredita?

- Não posso ver nenhum espirito; não acredito então.

- Ah, você só acredita no que pode ver? Então não acredita na via láctea, em plutão, nas ondas de rádio, celular, tv? Ou você acha que essas coisas funcionam do nada...

......

Ele me perguntou se eu poderia lhe pagar um lanche.
Suco de uva e esfirra integral com brócolis. 
- Acredite ou não no que você quiser. O mais importante não é no que você acredita ou deixa de acreditar. O mais importante é integridade, sinceridade, alegria. Capacidade de olhar nos olhos. Como você faz agora.  Não quer acreditar em espíritos, não acredite. Desculpe se tentei te convencer. 
- Quase conseguiu, moça. A senhora tem um jeito de falar que convence.
- Diga-me, o que fazes aqui?
- Minha mãe disse que eu viesse para pedir comida. Aí encontrei a senhora que me pagou esse lanche. 

........

Nunca nos perdemos de vista desde aquele nosso encontro. Fiz questão de acompanhá-lo, verificar se estava estudando,  se não faltava nada. Nos comunicávamos por email. De vez em quando por telefone.  No começo do ano ele me disse que passou no vestibular da Unb para engenharia mecânica. Fiquei feliz igual ao dia em que meu próprio filho passou no vestibular. 
Combinamos uma esfirra com suco, ali, no mesmo local em que nos conhecemos há alguns anos.

.........

Eu não estava mais diante de um menino franzino e sim de um rapaz alto, magro, de feições rudes.  O olhar penetrante e inteligente era o mesmo. Estava mais humilde, talvez.

........

- Ana, eu acredito em espíritos, mesmo que nunca tenha visto um.  E leio trechos de  livros espíritas todos os dias, depois da bíblia, feito você disse que era para fazer.
Eu ri. 

.......

Semana passada a mãe dele me ligou. Disse que ele morreu atingido por uma bala perdida quando voltava da Unb. Fazia o curso noturno, tinha que trabalhar durante o dia. Ele não era de entregar os pontos. Duvido que quisesse partir. Com sua inteligência arguta podia criticar tudo, criticar todos e se tornar fiscal de paisagem. Não. Ele estava lutando. Morreu assim. 
Poucas vezes a morte me surpreendeu. Muito poucas me atingiu.
Sei bem que se perguntasse o porquê, ela não me responderia. Resolvi silenciar. E compartilhar um texto do livro que ele gostava de ler antes de dormir. Aqui no blog. Mesmo para os que não acreditam em espíritos. Crenças  não são o mais importante. Importante talvez um jeito de olhar nos olhos, difícil em pessoas que não vivem de acordo com sua realidade íntima. Encontrar pessoas que olham nos olhos daquele modo pode ser um encontro para a vida toda.  Ou depois da vida ou antes dela.

.........

O texto abaixo foi escrito por um médium, a partir do ditado de um espírito. Mas se você não acredita nisso, tudo bem:


Não te esqueças da “boa parte” que reside em todas as criaturas e em todas as coisas.
O fogo destrói, mas transporta consigo o elemento purificador. A pedra é contundente, mas consolida a segurança. A ventania açoita impiedosa, todavia, ajuda a renovação. A enxurrada é imundície, entretanto, costuma carrear o adubo indispensável
à sementeira vitoriosa. Assim também há criaturas que, em se revelando negativas em
determinados setores da luta humana, são extremamente valiosas em outros. A apreciação unilateral é sempre ruinosa. A imperfeição completa, tanto quanto a perfeição integral, não existem no
plano em que evoluímos. O criminoso, acusado por toda a gente, amanhã pode ser o enfermeiro que
te estende o copo d’água. O companheiro, no qual descobres agora uma faixa de trevas, pode ser
depois o irmão sublimado que te convida ao bom exemplo. A tempestade da hora em que vivemos é, muitas vezes, a fonte do bem­
estar das horas que vamos viver. Busquemos o lado melhor das situações, dos acontecimentos e das pessoas. “Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada” — disse­nos o Senhor. Assimilemos a essência da divina lição. Quem procura a “boa parte” e nela se detém, recolhe no campo da vida o
tesouro espiritual que jamais lhe será roubado.

(Emanuel)







2 comentários:

Graça Pereira disse...

Um conto muito interessante e uma história de outra vida...Bem escrito e deves continuar.
Beijo e bom domingo
Graça

Ana Lucia Franco disse...

Obrigada, Graça, és sempre muito bem vinda..