segunda-feira, 9 de junho de 2014

Uma condição indestrutível



Sabe quando acordamos com uma inclinação diferente. Sede de alguma substância literária inusitada, capaz de arrebatar o assoalho de certezas erigidas por livros técnicos. Algo diferente do repertório básico padrão. Dose nada tênue de ousadia. Numa fase em que tenho a impressão de que os ombros não suportam  o peso de uma pluma. Uma lição de impermeabilidade era  bem vinda. 

No site da livraria cultura, de cara, vi um livro de nome sugestivo: "a condição indestrutível de ter sido" pedia para ser lido. Soube depois que a autora, Helena Terra, é a Bípede Falante, conhecida da blogosfera.

Versão e-book, li num fôlego. O livro narra uma época que presenciei, em que poetas escreviam grandes poemas em blogs. Havia algo como uma inspiração mútua. Criavam entre si vínculos. O ambiente da narrativa não me era estranho. O texto de ritmo metafórico, intenso, tem certo magnetismo.  

Vindo da Bípede, podia esperar algo mais frugal. Nada disso. O livro é carnívoro.  

A narradora conjuga os tempos verbais da entrega amorosa. Um daqueles vínculos da blogosfera carregava o gérmen de uma paixão. 

A narradora talvez não dimensione sua coragem. Mas não perde de vista a “condição indestrutível de ter sido” de alguém um amor perdido. Isso dói, ah...

O paliativo pode ser que amores não se perdem. O amor que aconteceu de modo incompleto pode estar a acontecer, subterrâneo, no fundo de alguma gaveta repleta de escritos não publicados. Ou de um arquivo esquecido no computador. Uma espécie de “universo paralelo” em plena ebulição.

Menina valente. Crer que o amor seria possível com a sombra do medo e da dependência afetiva a rondar(ele era irremediavelmente casado). 

Não foi possível. O que era venceu o que poderia ser. O velho devorou o novo. A paixão perdeu para a estrutura consolidada. Interessante que para viver bem uma paixão é preciso estrutura. Por outro lado, o apego à estrutura pode impedir a paixão. 

Não adiantei o final. O livro não tem final. Vale por cada página. Caminho cujo percurso é mais importante que a chegada. 

Ah, e a narradora teria um traço ninfomaníaco se não fosse poética (e rude). E a poesia redime. 

Parabéns Helena.  

4 comentários:

vinicius rocha disse...

De todos os olhares que li sobre o livro da talentosa escritora e artista plástica Helena terra, sem dúvida, pra mim o mais sensível e perfeito vislumbre. Vislumbre, pois sempre há mais nuances que nos tocam depois em livros como A Condição indestrutível de ter sido,
parabéns. abraço carinhoso.

Ana Lucia Franco disse...

O livro é um perfeito vislumbre.

Beijos

Bípede Falante disse...

Oi, Ana Lucia :)
Obrigada pelo post sobre o livro. Fiquei muito contente com sua leitura e com a resenha.
O bípede anda parado porque, desajeitadamente, desconfigurei a página de publicação e não consigo arrumá-la.
Beijo
Helena

Ana Lucia Franco disse...

Oi Helena!

Ah, não é resenha e sim um modesto comentário. Fiz para ativar meu blog com literatura, é o que interessa por aqui. Teu livro me emocionou. Achei corajoso.

Eu que agradeço.

Bj