sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Game Over II

Naquela época tudo era mais difícil. Ou tudo se tornou mais difícil depois que me casei. Comecei a trabalhar e deixei de fazer algumas coisas que antes fazia com naturalidade. Frequentar academia de ginástica, por exemplo. Perto de onde passamos a morar, havia uma academia muito boa e cara. Espaço descolado, moderno e agradável. Seria uma loucura pagar a mensalidade daquela academia com tanta coisa mais importante a ser suprida. Tínhamos que restringir gastos, pelo menos naquela época.

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Eu poderia fazer uma aula experimental. Alguma coisa poderia acontecer. Jamais pensei: “não irei porque não posso pagar”.


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Eu tinha acabado de beber água no bebedor próximo à entrada da sala de ginástica principal. Acabava de fazer a aula experimental de ginástica localizada. Estava parada como se esperasse algo:


Eu te conheço – ele me disse em voz alta

 - Desculpe, não estou lembrada de você
 - Você dançava na Lúcia Toller, não era? No bandança

 -  Dançava, nossa, você se lembra?

 - Claro que lembro. Você chamava minha atenção. Tinha muito ritmo.

Muito ritmo. Nunca mais esqueci dessas palavras. 

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Pouco depois ele me arrumou uma turma de baby class para dar aula. É, ele era o dono da academia. Agora, pagavam-me para frequentar a academia. Adoro crianças. Adoro dança. E ensinava dança para crianças, o que já tinha feito na academia Lúcia Toller antes de me casar. Ele parece que sentiu minhas dificuldades. Eu não disse nada. Ele simplesmente advinhou que eu não retornaria à academia se não me oferecesse aquela turma. As aulas aconteciam duas vezes por semana e eu poderia frequentar a academia à vontade. Não tinha muito tempo para isso. Mas o tempo que eu tinha, estava ali, naquele pedacinho de paraíso. A academia era dirigida por quatro irmãos, uma família que se estendia a cada um que ali ingressava. Havia marombeiros, bailarinas, ciclistas, esportistas, sedentários buscando mudar de vida. Todos eram tratados do mesmo modo acolhedor.


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A academia cresceu. Abriram filiais. Eles não trabalhavam somente por lucros. Trabalhavam com amor, encantamento, garra. Colhiam frutos de amizade, sobretudo. E mesmo assim lucravam e cresciam. Eu me mudei da quadra perto da academia. Passei a morar bem longe. Mesmo assim, deslocava-me de onde estivesse para lá. Agora podia pagar a mensalidade. Deixei de dar aula de balé para crianças. Impossível conciliar. Tenho saudades daquela época. Pensava nisso quando parei o carro em frente à banca de revista, sei lá porque. Raro eu comprar jornal ou revista impressos. Meus olhos foram sugados pela manchete: dono da academia runway morre de infarto fulminante aos 47 anos.

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Imediatamente, dirigi-me à runway. Era uma ensolarada manhã de quinta feira. A porta estava fechada. Percebi o movimento lá dentro. Pedi para entrar. Vi a irmã dele perto do bebedor em frente à sala principal de ginástica. Nos abraçamos.

- Tinha muito ritmo.

É como se eu pudesse escutar isso de novo naquele mesmo local.

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Estava com o coração pesado. Insegura. A morte me deixa sem chão, às vezes. Um local em que parasitas estão por toda parte e homens como ele são simplesmente ceifados, aos 47 anos, sem qualquer justificativa, não é confiável. Ele não estava doente. Preparava-se para o treino da manhã. Que mundo é esse, meu Deus!

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Gosto de estar ali, entre as sibipirunas ou dentro de alguma daquelas salas, porque o peso do meu coração perde o sentido. Se eu silenciar posso encontrar respostas ali. Naquelas livrarias, salas ou entre as sibipirunas. Muitas vezes não quero respostas, sabe. Somente estar ali onde cheguei na adolescência e hoje sei o porquê. Iria enfrentar algumas barras. Precisaria de respostas que iriam emergir ali. Agora tenho a impressão de que as respostas nunca foram o mais importante.


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A morte parece uma farsa, muitas vezes. Tudo continua. Ouço isso há muitos anos, sei que não é ficção. Claro que não é. E se for também não importa. O que é mesmo ficção? Olho ao redor, quando não estou ali, e tudo mais parece ficção.



Um comentário:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Acontecimentos que marcam as nossas vidas. Umas vezes queremos entrar na dança de conseguir uma boa casa e uma boa vida e com amor tudo se vai conquistando.
Quando menos se espera vem a morte, o desgosto a separação e tudo acaba.