quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Um feixe de luz


Há tempos, eu penso em escrever no blog sobre pessoas que largam o sistema sócioeconômico. Excluídos ou autoexcluídos.

Eu conheci uma pessoa que largou o sistema, mesmo. Não foi conversa fiada, não foi falta de opção. Um rapaz que deliberadamente largou o sistema. 

Eu estava em Porto Alegre há uns anos para o casamento de uma amiga quando, no hotel onde eu estava hospedada, haveria uma palestra do Eduardo, que eu não assisti porque era no dia do casamento, realizado numa igreja de nome curioso: Nossa Senhora das Dores. Pouco tempo depois aconteceu outra coincidência, em São Paulo, onde eu estava fazendo um curso. A duas quadras do hotel onde eu estava hospedada houve uma palestra do mesmo Eduardo. Inexplicavelmente atraída, cancelei meus compromissos, para espanto dos que me acompanhavam, e fui ouvir o Eduardo, que diz muita coisa interessante; óbvia é verdade. Mesmo o óbvio precisa ser dito. 

Eduardo é um cara que largou o sistema socioeconômico. Literalmente. Nasceu em “berço de ouro” e aos poucos começou a contestar o sistema social repleto de desigualdades, equívocos, contradições.

Impressionou-me a história dele. Já fui um tanto rebeldinha. Hoje passou. Mas já tive o olhar "bisturi" para o que estava errado. Até descobrir que há muita coisa certa também. 

Algumas vezes tive vontade de largar tudo. Não digo que não tenha tido coragem. Compreendi que tudo, por mais absurdo que seja, tem sua razão de ser e atitudes radicais nem sempre são adequadas. 

Com o Eduardo foi diferente. Ele largou tudo. Quis passar por cada necessidade, desconforto, contratempo, risco. E hoje ele compartilha suas experiências com muita lucidez.  

Fico pensando que uma pessoa, ao largar tudo, deve ficar muito atenta para o que irá fazer depois disso. Mesmo porque os laços não são completamente rompidos. A menos que se vá morar no topo do Himalaia ou numa caverna qualquer, ainda se precisa de muita coisa produzida pelo trabalho dos outros ao mesmo tempo em que se não produz. Há um certo desequilíbrio, uma descompensação. O perigo de deixar de produzir para começar a parasitar passa a ser real. 

Não foi o que ocorreu com o Eduardo, um artista talentoso que passou a sobreviver de seu artesanato. Eduardo não parou de trabalhar, de produzir, deixou de fazê-lo nos parâmetros impostos por sua classe social de origem. 

Recentemente, descobri que o Eduardo tem um blog: http://observareabsorver.blogspot.com.br/. E gostaria de divulgá-lo. Eduardo é uma pessoa do bem que utiliza seu tempo e sua energia para devolver ao sistema algo imprescindível. Pensando bem, Eduardo não largou o sistema, pelo contrário. O sistema o quer, o recebe e o aceita como um feixe de luz. 




2 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Existe em todos nós, quando jovens, um desejo de mudança, mas nem sempre conseguimos realiza-lo.
A única coisa que aprendi é que trabalhe todos os dias e que faça sempre o melhor daquilo que sei e que posso.

Ana Lucia Franco disse...

Luís, a principal revolução não é material, que é só um reflexo de outras, essenciais. Quem larga tudo materialmente e não larga o que deve largar de fato é só mais um candidato a uma vaga num abrigo público, nas ruas ou nos manicômios. De dar dó..