sábado, 28 de dezembro de 2013

Um ano radiante
















O clima de final de ano é muito bom. Parece que escolheram uma época do ano para zerarmos, como se no dia seguinte a vida começasse nova em folha. Mania de nascer como se nascimento fosse esquecimento. Acho que não é tão simples assim.  


Invade-nos uma grande esperança. O movimento do final de ano parece erigido pela mais pura esperança. Esperança que, de uma dia para o outro, possamos realizar o irrealizado, o que nos dá a sensação de que podemos ser melhores do que fomos no ano que está acabando. 

Final de ano é época de um balanço de vida que deveria ser constante, mas não é. Somos assim. Entregues a uma existência cercada de desafios, de mistérios, onde podemos vivenciar o sublime:  esperança,  amor,  felicidade.  De nada adianta aprofundar-se em gnoses e não conhecer estes estados de espírito. 

Estamos sempre buscando o que nos completa. 

Se há algo que no ano que vem quero fazer mais e melhor do que fiz este ano é me dedicar à minha religião, o espiritismo. Uma religião, e como tal tem suas falhas. Mas o que se apresenta é só a ponta de algo muito maior, mais largo, mais profundo. O espiritismo, apesar de tudo, faz muito sentido. Religiosidade, para mim, não demanda muita coisa. Nenhum show histérico ou pirotécnico. Tudo muito simples, igual é feito numa casa espírita. Cada qual tem seu modo de se expressar religiosamente. A vida com Deus é muito melhor. Quero estar mais na casa espírita que escolhi.  

Compreendo, claro, quem do conforto de sua sala de estar, de pezinhos para o alto, zomba de tudo que não pode ver, tocar, e acredita que a vida se resume a este minúsculo orbe e sua cambaleante e mortal população. Isso, apesar de estar cercado de ondas eletromagnéticas que fazem funcionar o celular, o wifi.  Parece  engraçada esta crença materialista, e profundamente ilógica, e tenho a impressão de que a providência divina também deve achar tudo muito engraçado. 

O materialismo é fonte de insatisfação. Clichê isso. Parece, há um fosso  que nunca é suprido. Apesar dos bens materiais, relacionamentos, viagens, títulos. Acredito que isso faça parte da nossa aventura existencial. Se não fosse para experimentarmos isso, não estaríamos aqui. Afinal, a experiência aqui e agora é material, não deixa de ser, embora alguns vivam a buscar o espiritual.  

Agora, o modo de lidar  com tal experiência é decisivo. Até que ponto o vazio dominará ou poderemos dominar o vazio. Eis a questão. E diante de tal questão, há quem busque algo mais que o suprimento de necessidades materiais, relacionais, emocionais. Algo além de tudo isso, suprimentos e subterfúgios que parecem, e talvez sejam, irrisórios. Este movimento me remete a um artista em busca da sua própria obra. A arte é uma espécie de religião, de conexão com uma força criativa e transcendente. Estranha-me a arte se isolar da religião e criar um nova ilha para se juntar a outras duas:  ciência x religião x arte. Cada um na sua ilha. Meu Deus! 

O que é nosso, mesmo, nesse mar de desejos por onde somos lançados, tal embarcações indefesas.  Quais desejos são realmente nossos, de tudo que for desejado na virada no ano.  Eu desejo que você possa reconhecer isso. 

De minha parte, sinto-me feliz.  Feliz por ser esse pacotinho de luzes e sombras, tateando minha existência. Feliz porque nunca larguei nada por amor. E vice versa. Sei lá, isso me dá um sentimento de leveza indescritível. E uma compreensão de que o amor não está a serviço da minha vaidade. Acho que o grande movimento da minha vida foi buscar um amor maior do que a minha pequenez, meu egoísmo, minha vaidade.  Dispensei amores que favoreciam meu ego sem que eu  compreendesse o porquê. Hoje compreendo melhor que, no fundo do meu movimento, havia uma busca maior do que eu. 

Que o amor signifique sempre muita dignidade. Nunca nos envergonhe ou humilhe. Muitas vezes, há uma situação de onde emerge a pergunta: como paramos aqui?  O que estamos fazendo com nossa vida? Por mais vexatória e esdrúxula que pareça a situação, pode se tratar de uma  missão de vida. Mesmo assim,  que seja oriunda de uma escolha consciente e benéfica para todos.   

Enfim, que a felicidade possa ser vivida, assumida, apesar de parecer ridícula e fora de moda. Eu quero ser feliz, sempre. Cada vez mais. Feliz de verdade. Feliz por ser e não por ter. Feliz em cada tarefa da minha vida, por mais simples que seja. Feliz toda hora. Felicidade não é nada tediosa. Talvez seja nossa aspiração mais real. O que movimenta o desvario, a busca incessante de satisfação por meio da qual muitas vezes se comete loucuras.  Muda-se de cidade, de país, se transpõe oceanos. Busca-se aqui, ali, o que pode estar tão perto. Pode estar ao lado. Pode estar onde sempre esteve e nunca percebemos. 

Quero crescer em amor, em caridade, em compreensão. A caridade passa por uma compreensão ampliada do outro. A compreensão de que há quem carregue uma ferida tão profunda que jamais será feliz ou estará satisfeito, tenha o que tiver. Tenha recebido o que for.  Simplesmente não são felizes e por isso podem incomodar muito.  E não adianta se aborrecer com isso. Não adianta sugerir: suma daqui. Não sumirão.  Nós é que podemos sumir e não olhar mais para um abismo que não nos pertence. Crescer em caridade e amor para compreender o incompreensível.  E nos limitarmos a colher o que nos é devido. Reconhecer a parte que nos cabe.  Assim a vida é sempre restituída a seu fluxo.  

Que o ano novo, para todos, seja brilhante como uma estrela, a radiante estrela da manhã. 

2 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Uma visão e uma análise diferente para este final do ano.
Penso que final do ano é todos os dias e que será no amanhecer de cada dia que os nossos propósitos se devem organizar para fazermos uma vida mais digna e mais útil.

Votos de um Ano Novo muito feliz.

Ana Lucia Franco disse...

Temos a possibilidade de, a cada dia, fazer um ano novo, Luís.