sexta-feira, 5 de abril de 2013

O dia do aniversário

Mas o dia do meu aniversário. Fiz coisas estranhas este ano. Eu que sempre fui tão caretinha. Pintei as unhas de vinho. Sempre pinto unhas de cor bem clarinha. Mudei. Santa vaidade, Batman. Não é vaidade, não. E se for? Creio que não há ninguém incomodado com a minha vaidade. Longe de mim escrever para pessoas que se incomodam com a vaidade alheia. Acho que não foi vaidade. Foi vontade de mudar. Sabe quando se é de uma determinada maneira e até se filosofa sobre isso. Aí, quando a vida não dá um solavanco que desmorona o ideal de uma vez só, vai desmoronando sutilmente. Aqui e ali, algo começa a parecer maleável, fluido. Coisas estranhas começam a ocorrer: muda-se o aspecto das unhas e a cor do esmalte com que as pintamos. Pode parecer bobagem. Quanta futilidade pintar as unhas de esmalte vinho, eu mesma pensaria isso há alguns anos. Hoje não.

Não estou em crise de consciência porque minhas unhas parecem de mulher da vida. A propósito, mulheres da vida talvez tenham muito a me ensinar. Não rolou ainda estar com uma delas, cara a cara, mas se rolar, procurarei auscultar a simbologia do encontro com leveza, com o coração, sem pré julgamentos.

Está aí uma grande vontade minha a ser trabalhada: despir-me de pré julgamentos. Quero abrir cada vez mais meu coração. Um coração aberto compreende e até mesmo coisas abomináveis têm um viés que pode ser compreendido e até mesmo amado. Ama-se de fato, assim. Amar familiares, filhos, companheiro, é fácil. Amar o inusitado é belo. Amar com beleza pode ser mais difícil do que o amor fácil por quem se tem até mesmo obrigação de amar. Quero amar com beleza e amar além de quem deveria. Amar tudo, por mais que pareça impossível. Há sempre o que amar. Fazemos parte de um todo tão perfeito quanto imperfeito e amar o todo é amar mesmo. Por isso não levanto bandeiras. Jamais seria feminista ou natureba, por exemplo. Embora tenha minha maneira de proceder no mundo, que pode mudar assim como mudaram a cor de minhas unhas, devo ter o cuidado de não me alienar e compreender maneiras de ser diferentes da minha, que coabitam num mesmo espaço, não à toda. Talvez para que se compreendam mutuamente, e não se aniquilem. Se o ser humano evolui de alguma forma é quando passa do se aniquilar para o se compreender. Pode ser difícil. A incompreensão e o desamor podem se mascarar de tantos modos. Até mesmo de compreensão e de amor, do oposto. Aí lembro de uma música baseada num poema da Cecília Meireles: “Tenho tido muita coisa, menos a felicidade”...

Que mais eu fiz. Bem. Além de pintar as unhas, dancei forró. O que não fazia desde a adolescência quando havia festinhas de colegas em que tocavam forró e eu torcia o nariz porque não gostava da música nem da dança muito atrevidinha. Eu era cult naquela época. Ouvia de Pink Floyd, Rush, The Doors, Led Zepelin a Beethoven, Choppin, prá lá. Forró?! Agora, dancei e gostei. Gosto de dançar, fiz balé por muitos anos. Decidi que voltarei a dançar. Forró também. Estou convencida: forró não é ridículo, radicalismo sim. Ser radical e julgar é muito ridículo. Compreender parece mais belo,  mais maduro.

Tomei um longo banho de sais, também. Sempre tomo, não só no aniversário. Não para limpar encostos. Quanto a encostos, não acredito que um banho de sais resolva mais do que a postura mental. A capacidade de girar o dial, mudar de sintonia, livrar-se dos encostos, caso existam, requer outras coisas além de um simples banho, que refresca, a pele fica ótima. Mas por si não livra dos encostos que podem até se divertir com tanta ignorância. Sou contra dar receitinha de banho para se livrar de encostos o que não serviria para todos, indiscriminadamente. Mas citarei o que pus no banho, não como receitinha, mas para compor o texto: folhas de manjericão, óleo vegetal de uva, sais que limpam profundamente a pele. Acendi velas. Sou ritualística quando tomo esses banhos. Ritualística, não ridícula. Gosto do visual das velas, dos aromas que aguçam os sentidos e só.

Gosto de imaginar, nas águas, que renasço a cada ano. Vislumbrar que daqui para frente tudo pode ser mais maleável, mais leve, menos agrilhoado. E tudo, a cada ano, de fato o é.

Um comentário:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Parabéns. Feliz aniversário.
Penso assim e gosto de ser assim.
Gosto da mudança e de crescer aprendendo cada dia mais e mais.

Ter liberdade para ler o que se gosta e capacidade para analisar aquilo que não se gosta.